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Série Harco – Condomínios Sem Fronteiras | Mountain Dwellings: o condomínio de Copenhague que transformou uma garagem em uma montanha de jardins

27 de out.
7 min de leitura

Em Copenhague, na Dinamarca, um empreendimento residencial transformou um problema comum das cidades em uma solução arquitetônica surpreendente: em vez de construir apartamentos ao lado de um grande estacionamento, utilizou a garagem como base para uma encosta artificial de moradias com jardins privativos.



O Mountain Dwellings demonstra que estacionamento, habitação e paisagismo podem ocupar o mesmo terreno de maneira inteiramente diferente, mas também evidencia os desafios de administrar uma construção na qual o jardim de uma residência pode ser a cobertura de outra estrutura.


Imagine chegar de carro ao estacionamento de um prédio e descobrir que, acima dele, existe uma espécie de bairro escalonado, com casas, terraços verdes, portas envidraçadas e vistas abertas para a cidade.


Essa é a proposta do Mountain Dwellings, também conhecido como The Mountain, no bairro de Ørestad, em Copenhague.


Concluído em 2008, o empreendimento foi projetado pelo escritório BIG – Bjarke Ingels Group, com colaboração do JDS Architects, e possui aproximadamente 33 mil metros quadrados. Reúne 80 apartamentos e uma estrutura de estacionamento com 480 vagas. Sua solução foi unir duas funções que originalmente poderiam ocupar edifícios separados. (BIG – Bjarke Ingels Group)


A pergunta mais interessante não é apenas como se constrói uma montanha artificial. É como manter funcionando um conjunto no qual a garagem sustenta as residências, os terraços são coberturas ajardinadas e a circulação segue uma geometria nada convencional.


Quando o estacionamento se transforma em terreno para morar


O ponto de partida do projeto era uma exigência bastante objetiva: aproximadamente dois terços do programa seriam destinados ao estacionamento e um terço à habitação. A solução mais previsível seria construir uma garagem e, ao lado, um edifício residencial convencional.


Os arquitetos escolheram outro caminho. Transformaram a estrutura destinada aos automóveis em um grande volume inclinado e posicionaram os apartamentos sobre ele, como se as residências ocupassem uma encosta.


A garagem precisava de áreas amplas e acesso eficiente para os carros. Os apartamentos, por sua vez, precisavam de iluminação natural, ar fresco, privacidade e vistas. A disposição escalonada permitiu conciliar essas necessidades, aproveitando diferenças que, em uma solução tradicional, poderiam ser tratadas como obstáculos.


Vista de fora, a construção parece uma montanha feita de terraços sucessivos. Cada residência ocupa uma posição diferente na inclinação, com sua própria área externa. É uma tentativa de proporcionar características de casas com jardim em um empreendimento de maior densidade urbana. (ArchDaily)


O jardim de uma residência sobre a estrutura de outra


O principal benefício para os moradores é a presença de terraços com jardins de uso privativo. Em vez de varandas pequenas, o conjunto dispõe de áreas externas amplas, com plantas que mudam de aparência ao longo das estações.


As fachadas envidraçadas e as portas de correr aproximam o espaço interno do jardim, favorecendo a entrada de luz natural e a utilização dos terraços como extensão da moradia. O projeto também incorpora um sistema de irrigação destinado à conservação da vegetação. (BIG – Bjarke Ingels Group)


Mas existe uma questão essencial para a administração condominial: um jardim suspenso também é um sistema construtivo.


Sob a vegetação estão camadas de substrato, drenagem, impermeabilização e componentes estruturais. A água da chuva e da irrigação precisa ser conduzida sem alcançar a garagem, os apartamentos ou outros ambientes localizados abaixo. Uma falha de impermeabilização pode aparecer como infiltração longe de sua origem.


A manutenção precisa, portanto, integrar paisagismo e engenharia. É necessário observar ralos, raízes, excesso de umidade, peso de vasos, alterações no solo e intervenções que possam perfurar as camadas de proteção.


Se um morador instalar um equipamento pesado, construir uma estrutura adicional ou substituir espécies vegetais sem avaliação técnica, poderá modificar cargas e condições previstas originalmente. O uso privativo do jardim não elimina a necessidade de respeitar a integridade do conjunto.


Como funciona a enorme garagem sob os apartamentos?


A estrutura de estacionamento possui 480 vagas e se desenvolve sob a superfície inclinada das moradias. Em determinados pontos, a altura interna chega a aproximadamente 16 metros, produzindo a sensação de um espaço muito mais aberto do que a de uma garagem convencional.


O projeto inclui um elevador inclinado, que acompanha parte da geometria da construção, facilitando a circulação entre níveis. A disposição dos acessos permite aproximar o estacionamento das residências, reduzindo a dependência de percursos longos e de deslocamentos até um único térreo. (ArchDaily em Português)


O detalhe merece atenção: as 480 vagas não significam, necessariamente, seis vagas exclusivas para cada apartamento. O número caracteriza a capacidade da estrutura, cuja operação e distribuição dependem da organização do empreendimento.


Para a gestão, o desafio é administrar uma área automobilística de grande porte integrada à parte residencial. São necessários critérios de circulação, sinalização, acessibilidade, manutenção dos elevadores, controle de acesso e respostas a incidentes.


O dimensionamento das rotas de emergência, a proteção contra incêndio e os sistemas de ventilação exigem tratamento compatível com o projeto e as normas aplicáveis. Não basta considerar a garagem uma área independente: ela faz parte da base funcional da construção.


Uma fachada que representa o Monte Everest


O Mountain Dwellings apresenta outra solução pouco convencional nas fachadas norte e oeste: grandes painéis de alumínio perfurado revestem a estrutura da garagem.

Esses painéis cumprem simultaneamente funções arquitetônicas e ambientais. As perfurações permitem a passagem de ar e de luz natural, enquanto sua distribuição forma uma imagem gigantesca do Monte Everest.


Durante o dia, a composição se destaca pela diferença entre as áreas perfuradas e a superfície metálica. À noite, com a iluminação interna, a leitura da fachada se transforma. Os pavimentos da garagem foram concebidos com cores diferentes, que participam desse efeito visual. (ArchDaily)


Trata-se de um bom exemplo de componente que não deve ser tratado como simples decoração.


Na prática condominial, fachadas perfuradas demandam inspeções de fixações, corrosão, deformações e limpeza. Uma substituição inadequada de painéis pode prejudicar a composição visual e interferir nas condições de iluminação e ventilação previstas no projeto.


Também é importante evitar que reformas, fechamentos ou novas instalações obstruam passagens de ar sem análise técnica. Uma solução estética pode depender de características físicas indispensáveis ao desempenho do edifício.


Irrigação, drenagem e impermeabilização: o desafio invisível


Em um condomínio tradicional, jardins podem estar concentrados no térreo. No Mountain Dwellings, eles estão distribuídos ao longo de uma sucessão de coberturas habitadas e ajardinadas.


Essa diferença altera o modo de planejar a conservação. O sistema de irrigação precisa atender superfícies em diferentes cotas; a drenagem deve considerar os caminhos da água; e a impermeabilização precisa proteger espaços utilizados diariamente.


Mesmo quando o jardim pertence ao uso exclusivo de um apartamento, seus componentes podem estar diretamente relacionados à proteção de ambientes localizados abaixo. Por isso, a administração deve preservar desenhos técnicos, registros de intervenções, orientações de manutenção e informações sobre os materiais empregados.


A localização de um vazamento pode exigir a investigação de mais de um terraço e de trajetos de água pouco intuitivos. Reparos improvisados ou feitos sem compreender o sistema completo podem apenas transferir o problema de lugar.


A lição é simples: em uma arquitetura escalonada, cuidar do jardim também significa cuidar da cobertura do edifício.


Privacidade, convivência e regras de utilização


O escalonamento cria uma experiência residencial próxima à de casas com quintal, mas os moradores continuam compartilhando uma única construção complexa.


Terraços posicionados em diferentes níveis podem gerar questões relacionadas à privacidade, ruído, iluminação, utilização de mobiliário externo e conservação do paisagismo. Alterações na altura da vegetação, instalação de toldos e criação de fechamentos podem afetar vistas, entrada de luz e a aparência arquitetônica.


Por isso, é importante estabelecer critérios claros para intervenções nas áreas externas. A administração precisa distinguir o uso cotidiano permitido de modificações que exigem avaliação técnica e, conforme o regime jurídico aplicável, autorização específica.


O projeto mostra que o espaço de uso privativo não está isolado do edifício. A forma como cada morador utiliza seu terraço pode ter efeitos sobre a unidade vizinha e sobre a integridade das áreas comuns.


Um orçamento que precisa compreender a construção inteira


O Mountain Dwellings combina equipamentos e estruturas com necessidades diferentes: garagem de grande capacidade, elevador inclinado, fachadas metálicas especiais, áreas envidraçadas e uma extensa sequência de jardins suspensos.


Cada sistema possui rotinas próprias de inspeção e manutenção. Alguns demandam serviços frequentes, como a irrigação e a limpeza de drenagens. Outros exigem avaliações especializadas, como a conservação de revestimentos, fixações, equipamentos de transporte e impermeabilizações.


O planejamento financeiro não pode considerar apenas o custo imediato de conservação. Precisa prever a substituição futura de componentes, possíveis intervenções nas áreas ajardinadas e as dificuldades de acesso a determinadas superfícies.


Também é importante separar benefício arquitetônico de economia operacional comprovada. O aproveitamento inteligente do terreno é evidente no projeto, mas não autoriza afirmar, sem dados específicos, que a garagem ou os jardins geram determinada redução percentual de despesas condominiais.


O que os condomínios brasileiros podem aprender?


A principal inspiração do Mountain Dwellings não é construir uma montanha artificial em qualquer terreno. É reexaminar a relação entre espaços que costumamos projetar e administrar separadamente.


A garagem pode integrar uma solução arquitetônica mais ampla, em vez de simplesmente ocupar a área menos valorizada do empreendimento. Coberturas podem oferecer áreas externas de qualidade, desde que estejam preparadas para suportar vegetação, água e utilização cotidiana.


Outro ensinamento está na gestão dos jardins suspensos: paisagismo, impermeabilização, drenagem e estrutura precisam ser tratados de maneira coordenada. Não são contratos ou problemas completamente independentes.


O condomínio também precisa conservar as características que justificaram as escolhas originais do projeto. Aberturas de ventilação, sistemas de acesso, revestimentos especiais e limitações de uso dos terraços não podem ser modificados apenas por conveniência momentânea.


Por fim, o empreendimento reforça a importância do conhecimento técnico acumulado. Projetos atualizados, históricos de manutenção e regras objetivas de utilização ajudam a evitar que intervenções isoladas comprometam uma solução coletiva.


Uma montanha construída para morar


O Mountain Dwellings transformou uma exigência de estacionamento em uma oportunidade para oferecer jardins, luz e vistas a 80 residências. A garagem deixou de ser apenas uma estrutura anexa e passou a sustentar uma paisagem habitável.


Acima dos carros, uma sequência de terraços cria a imagem de um bairro com jardins. Na parte externa, painéis perfurados dão identidade à construção e contribuem para as condições ambientais da garagem.


A arquitetura impressiona porque duas funções aparentemente incompatíveis foram reunidas de modo inteligente. Mas sua permanência depende de manutenção, planejamento e respeito às características técnicas da obra.


A principal lição do Mountain Dwellings é que uma solução brilhante de projeto precisa ser acompanhada por uma gestão igualmente cuidadosa.


Fontes consultadas


BIG – Bjarke Ingels Group. The Mountain – apresentação oficial do projeto. Informações sobre a concepção, o programa, a área construída e as residências.


ArchDaily. Mountain Dwellings / PLOT = BIG + JDS. Informações sobre jardins, estacionamento, elevador inclinado e fachada.


ArchDaily em Português. Mountain Dwellings / BIG & JDS. Descrição técnica e arquitetônica do empreendimento.


As observações sobre conservação, segurança, regras de uso, planejamento financeiro e responsabilidade administrativa são análises aplicadas às características do projeto, e não afirmações sobre procedimentos internos efetivamente adotados no empreendimento.

 
 
 

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